Arquivo da tag: filosofia

Utopias e Ventos

[Foto: André L. Soares]

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UTOPIAS E VENTOS
(André L. Soares)
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Desde sempre é esse mistério
no escapulário, no cavalo,
no cemitério, no cardume, no cardápio,
no calcário, na oração!
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E o que fazer diante do tempo
e da Ordem dos Templários,
na escuridão dos monastérios
ou na espada dos assírios,
sabendo que, hoje, nossos filhos
– espalhados pelo mundo -,
ainda trilham mil calvários
atrás dessa liberdade,…
sempre por vir?
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Diante disso,…
quero explodir mil fevereiros,
riscar um novo manifesto,
sendo meu próprio Querubim
– burguês de origem operária,
razão no fio da navalha -,
reinventando a velha história
(agora me levando a sério)
e no vermelho-climatério
abrir porões, quebrar os elos,
destituindo donatários,…
por esse ‘Dezoito de Brumário’
escrito dentro de mim.
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Mais-Que-Perfeito

[Fractal – MecM]

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MAIS-QUE-PERFEITO
(Rita Costa)
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Haverá algum verso
capaz de descrever
o breve instante
em que, num só fôlego,
atravessa-se o silêncio
e o perfume existentes no ar?

Como traduzir,
naquele milésimo de segundo
e a mesma beleza que há
no brilho dos olhares
– rodamoinhos de mistérios
castanhos –,
quando, revelando os sentidos,
buscam saciar a sede
do corpo inteiro?

Talvez seja impossível
descrever o encanto
de infinitos versos,…
tal a poesia nascida
do assovio dos rios,…
quando deslizam sobre as pedras,
inundando os veios das florestas,
preenchendo o abismo,
legitimando a vida.

(…)

Descrever aquele instante,
a harmonia existente
entre a graça e a volúpia,
haveria de ser música.
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Olhos Felizes

[Eyes And Light – Vyrl]

Eyes And Light - Vyrl

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OLHOS FELIZES
(André L. Soares)
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Aventureiro,…
o meu beijo é Marco Pólo
em busca de tuas Ilhas Virgens,
percorrendo,… absorto,…
pêlos e poros desse corpo,
até que sintas vertigens,…
enquanto minhas retinas
– hábeis atrizes –
fingem não ver, em teu rosto,
o brilho (in)comum aos olhos…
quando felizes.
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Rebelde

[Passion – Rovino]


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REBELDE
(André L. Soares)
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Teus mistérios me devoram,
me transformam em compulsivo curioso,
homem em fogo a desejar-te todo tempo,
espantado com a cor desse fascínio;…
mas sob teu domínio
meu amor é furiosa tempestade!

Liberdade é tolice que abdico.
Quero ser, por livre-arbítrio,
tua propriedade,… teu escravo.
Vem satisfazer-se plena em mim,
mas não conta sempre assim
com essa leal passividade.
Sou mesmo de veneta,…
vez ou outra, sou rebelde amotinado.
Tendo rabiscado cicatrizes na tua pele,
deixarei mordidas em tua carne!

Invertido, assim, o jogo de cartas marcadas
entre a casa grande e a senzala,
se à luz do dia, tu mulher és minha dona,
quando, enfim, a noite acalma,
sou eu o amo de teu corpo,
tu és minha mucama…
servil, apaixonada!

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Verso Seco

Lost in the Desert II - Alfred Gockel

[Lost in the Desert II – Alfred Gockel]

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VERSO SECO
(Rita Costa & André L. Soares)
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De manhã a cidade devorara meus sonhos,
– ai meu Deus, tanto estrondo na cabeça,
…antes que eu me anoiteça,
preciso voar!…
Os santos me abandonaram,
quase à beira da morte;
não me valeu o batismo,
tampouco viver de porre;
há muito perdi o bonde;
hoje sou mangue sem mar!…
Meu jantar são essas pedras
que roubei do pão-de-açúcar;
doze dígitos nas dúvidas,
essa sorte está maluca,
se deu ‘bico’ na sinuca…
é sinal de azar!…
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Sendo o sonho virou drama,
quero hoje meu quinhão,
pois perdi a contramão da vontade criativa
de dar nó em pingo d’água,…
resistir!
Já faz tempo que finquei a pá e os pés,
revirando o cimento na frieza desse chão
onde agora outros passam…
na ilusão
de algum dia feliz,
que ainda está por vir!…
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Porém se engana
quem me acha derrotado,
somente estou dando um tempo,…
(esperando outro estágio)
e se aceitei pagar pedágio
é porque posso passar!…
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Tiro o ás da manga-rosa
e traduzo o carteado
(só não quero a ‘razão-pura’);
sei que sou um pau-de-arara
(mas jamais um pau-mandado),
meu destino eu mesmo escrevo,
ainda que eu não saiba ler!…
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Lembro, então, que até jurei,
na soleira empoeirada,
ser bem mais que um quase-nada,
esquecido pelo mundo;
posto, assim, sei que mereço,
cobrar da Nação-Madrasta
mais que o direito de entrar
por essa porta dos fundos!…
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Sou vencedor e vim
de tantos lados que nem sei,
e ainda que eu não aceite
os moldes dessas duras-leis,
milhões de mim estão aqui,
para possuir tuas cidades.
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Chega de engolir choro,
pelas feiras de domingo:
vocês sempre se rindo…
e eu comendo sem ‘mistura’,
aceitando as misérias
desse ateu-destino-algoz;
tanta farinha de ‘puba’,
seco alimento de minha ira,…
– daqui pra frente,…
sou eu quem rejeita a paz.
Quanto às regras, tanto faz,…
quero é soltar a voz!
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