Prosa

['Portrait of a Man' - Tamara de Lempicka]
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OS RELÓGIOS
(Rita Costa & André L. Soares)
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Abro os olhos. O silêncio dos pássaros indica que não é manhã. Devo ter dormido demais. Sequer lembro os últimos acontecimentos. Teria bebido em excesso? Levanto-me. Passo a mão no pulso… nada. O Rolex deve estar na sala, na mesa do telefone, onde sempre o esqueço. Na estante, o relógio digital marca catorze horas. Ouço vozes. Vêm da sala. Caminho até lá. O sono profundo fizera bem. Sinto-me leve. No corredor, paro diante do quadro na parede. Nunca me dera conta de como era bonito. Que cores incríveis! Admirei por alguns instantes e vou à sala.
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Surpreso, constato que a casa está cheia. Eu nem sabia que havia festa. Quem teria convidado tanta gente? Havia parentes e amigos que não via há muito. A maioria em traje formal. No canto esquerdo, a mesa de jantar oferecia salgados e sucos. Uma decoração ostensiva e de bom gosto – à base de flores brancas – parecia ter sido improvisada próximo à porta. Eu não tinha fome ou sede, calor ou frio. Estava apenas… tranqüilo. Não sei o que comemoravam. Não era meu aniversário. Os presentes pareciam me ignorar. Ninguém me cumprimentou. O centro da festa não era minha pessoa. Menos mal. Apesar de não ter sido avisado, juntei-me a todos. Afinal, a casa é minha.
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Próximo à janela, ofegante como quem carece de ar, avisto Fernando: antigo companheiro de noitadas, da época do curso de Contabilidade na PUC. A amizade sólida rendeu, em outros tempos, muitas tardes junto à piscina, na casa em Guarujá, enquanto falávamos de antigas namoradas. Agora, noto preocupação em seu rosto. Estava alheio à conversa ao redor. Com o olhar fixo em algo lá fora, nem percebeu minha chegada. Viciado em jogo, deve estar com problemas financeiros. Talvez possa ajudá-lo emprestando-lhe algum dinheiro a juro. As taxas andam ótimas. Falarei com ele depois. Agora é festa. Meio chata é verdade. Sem música e dança. Mas, ainda uma festa.
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Em pé, ao lado do velho carrilhão suíço, constatei serem catorze horas e dez minutos. Pensei em tomar algo. Acenei para Maria – a empregada –, que parecia me olhar. Porém, ela passa direto com a bandeja de licor e some entre os demais. No que a sigo com os olhos, deparo com Sílvia e Carlos. Um casal que deu certo. Ele: gente boa; agora mais careca, sem perder o charme. Ela: sempre bela; hoje ainda mais. Curiosamente também não sorriam. Talvez fosse a ausência de música. Eles adoravam dançar. Aceno ao casal e continuo o giro pela imensa sala. E, já que estavam todos com cara-de-velório. Resolvi bagunçar um pouco as coisas.
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Aproximo-me de Laura, secretária do Rodolfo – meu chefe na imobiliária. Olho em volta. Ninguém me observa. Passo a mão naquela bunda gostosa. Laura finge não sentir. Sempre desconfiei que por trás daquela pose toda havia uma sem-vergonha. Aliso à vontade. Ela não diz nada. Minutos depois, chega seu namorado. Saem de braços dados. Ela, que tantas vezes rejeitara minhas investidas, agora bancava a santa, como se nada acontecera.
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Dou mais uns passos e vejam só: até o Mário está aqui. Apossara-se da bandeja de frios. Não por acaso, dizem que não perde uma boca-livre. Também, com uma pança dessas! Nunca entendi porque Rodolfo o mantém na empresa. Embora seja funcionário antigo, desde a fundação, não é grande coisa. E afinal, não é época de sentimentalismo. São outros tempos. A cada dia a concorrência é maior. Tem-se que contratar gente nova, ousada,… que transborde vida! Mário, já deu o que tinha que dar. Por mim, aposentava-o hoje. Encostava o velho de vez. Antes que enfarte. Uma firma tão moderna não pode aceitar idéias atrasadas.
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Nesse momento, meus olhos alcançaram Laura. Tive que reconhecer: Rodolfo é talentoso na hora de contratar boazudas. Por falar nisso… será que Lívia veio? Essa é outra… deliciosa. Até o fim do mês ela não me escapa.
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Foi ainda com esses pensamentos que avistei Rubens. Desde a infância, o melhor amigo. Desses por quem se põe a mão no fogo. Precisava cumprimentá-lo. Há anos não o via. Caminho até ele. Paro no meio do trajeto. A cena é inacreditável. Ele olhou pra todos os lados e não me viu. Então, pôs-se a enfiar coisas nos bolsos. Primeiro, um talher de prata. Depois, o artefato raro comprado na Índia. Por fim, o Rolex que fora de papai, o qual eu sempre esquecia na sala, sobre a mesa do telefone. Antes que o relógio desaparecesse em seu bolso, pude ver que os ponteiros marcavam catorze horas e quinze minutos. Tentei detê-lo. As pernas não me acompanharam. Fiquei preso ao chão.
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Recuperado da decepção, voltei a circular pelo ambiente, observando os convidados. Sem querer esbarrei em César e Augusto. Meus irmãos pelo lado materno. Duas verdadeiras ‘malas-sem-alça-na-subida-da-ladeira’. Tendo em vista o mau-gosto de mamãe para escolher maridos, só poderia ter dado nisso mesmo. Dois fracassados, sem ambição… iguais ao pai. Conversavam de modo tão sério que nem me viram. Escutei parte da conversa. Corretor experiente que sou, vi que falavam da venda de uma casa. Ao que pude entender, o tal imóvel seria parte de algum inventário. Vislumbrei a possibilidade de um bom negócio. Inexperientes, provavelmente aceitariam a primeira oferta. Pensei: ‘isso não é para esses dois. É coisa grande. Ideal pra mim’, que, no disputado mercado imobiliário da Grande São Paulo, nunca perdi uma boa venda.
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Preparei meus argumentos para invadir a conversa. Queria levantar informações para, no dia seguinte, tomar para mim, aquilo que parecia ser algo lucrativo. De repente, novo alvoroço. Todos se amontoavam na porta. Alguém disse: ‘– O corpo chegou!’. Somente aí as coisas começaram a clarear. Dei por falta das mulheres da família. ‘– Meu Deus… mamãe deve ter falecido! O imóvel que meus irmãos tramam vender deve ser o apartamento dela. Por isso não me acordaram. Vai ver, até fui sedado!’.
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Os homens da funerária entraram com o luxuoso esquife de mogno. Puseram-no ao centro da sala. Um deles, o que parecia ser o chefe, avisou: ‘– São catorze horas e trinta minutos. Voltaremos em uma hora, para transportar o corpo até o cemitério. Dito isso, abriram a sobretampa e saíram. Todos correram a rodear o caixão. Não havia espaço que me permitisse ver o corpo. Era possível apenas ouvir choro de mulheres. Alguém gritou: ‘– Ela está passando mal! Abram espaço! Chamem um médico!’. A maioria se afastou. Ao lado do ataúde, amparando-se mutuamente, estavam mamãe, tia Rosa e Ana, minha noiva. Choravam copiosamente.
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Finalmente me pus ao lado do caixão. Levou meia-dúzia de minutos até que eu compreendesse aquela imagem. Deitado ali, frio e pálido como o mármore, vestido no melhor terno italiano e ladeado de flores… estava ninguém menos que… eu! Fiquei ali parado. Perplexo. Incrédulo. Petrificado como meu próprio cadáver. Era perturbador ver-me ali. Sentir-me aqui. Saber-me em lugar nenhum. Nada mais lembro após isso. Exceto que, no pulso de Ana, o relógio – presente de nosso oitavo aniversário de namoro – marcava quinze horas e trinta minutos.
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7 Respostas para “Prosa

  1. muito maravilhoso sua criaçao parece ate uma cronica ,

  2. Muito bacana o blog. Vim por intermédio dos Blogs da Nina Victor.
    Voltarei mais vezes.

    abraços

  3. Maravilhoso. Parabens

  4. caravc e muito bom de onde vem essa inspiração?

    http://www.mundosubliminar.xpg.com.br

  5. patricia ferreira mattos

    olá!amei ter encontrado seu blog,consequi me indentificar muito,axo que a vida e um verdadeiro poema,amei de verdade,agora seu blog fará parte da minha vida

  6. patricia ferreira mattos

    lindo ,lindo

  7. Pareceu -me um filme, fui lendo e me perdendo no caminho…

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